Na feira de Lajedos

É sábado, o primeiro do mês, e há um movimento diferente na comunidade de Lajedos, em Santo Antão. É dia de feira de produtos locais. Legumes, frutas, enchidos, doces, licores, sumos naturais, pratos típicos, queijo de leite de cabra, quitutes da terra. Não há na ilha, e se calhar no país, uma feira igual à de Lajedos. Porque aqui, tudo é produzido e transformado pela própria comunidade. Mote para se dizer: terra boa esta!
Pode ser que alguém, acostumado à azáfama de mercados municipais como os do Mindelo ou da Praia, veja na feira de Lajedos um acontecimento menor. Ou então, pelo facto de ser um evento inédito na ilha, crie uma expectativa tal que saia dali com a sensação de que " esperava mais". É natural que se pense assim, até porque não é fácil, em um dia, medir o capital social de uma comunidade.
Mas a feira é mais do que um dia de exposição de produtos da terra. O certame, que já vai na quarta edição, é um desafio assumido por uma comunidade que muitas vezes tem receio de arriscar. À primeira vista, parece uma responsabilidade grande demais. Outras vezes, não têm certeza do real valor que os seus produtos possam ter para gentes de fora. Há meses em que há um movimento grande, em termos de número de expositores, e outros em que nem por isso.
Mas o simples facto de ultrapassarem seus próprios receios e de acreditarem que têm algo de bom a oferecer, é um sinal de força. Porque ousar é preciso numa terra onde a natureza só dá a quem trabalha. Trata-se de uma feira de economia solidária, que arrancou em Dezembro último. Até agora, os expositores não pagam taxa de participação, mas a associação de desenvolvimento comunitário já está a criar um modelo próprio de gestão do certame.
Lajedos é um caso único de desenvolvimento comunitário sustentado, criado pelo Atelier Mar, há 18 anos, assente no incentivo à iniciativa das gentes da povoação. O projecto já deu frutos: Lajedos tem horta, escola, esplanada, polivalente comunitários, além de oficinas de produção de lajetas, artesanato e de transformação de frutas e legumes. Concluída está também uma estrutura de acolhimento de visitantes, para explorar o turismo rural e ecológico. Está situada na horta comunitária Babilónia e compreende um restaurante, duas residências e espaços de lazer. É lá que irão trabalhar seis jovens da comunidade, que no dia 6 deste mês terminaram uma formação em acolhimento, bar e restauração, com duração de um mês, e que teve lugar nas instalações do Pedracin Village, em Boca de Coruja.
A metodologia utilizada pelo Atelier Mar para desenvolver o projecto Lajedos foi aplaudida pela União Europeia e as Nações Unidas. Patrocinada está um projecto maior que irá estender esta experiência a duas dezenas de comunidades de Sto. Antão.



