Daniel Pereira. Uma biografia.
Conversar com Daniel Pereira é falar da história de Cabo Verde, particularmente, da Cidade Velha.Um diplomata que se assume como homem de cultura, tendo sido o primeiro a publicar uma cronologia da história da primeira cidade que os portugueses fundaram nos trópicos. António Leão Correia e Silva, outro historiador cabo-verdiano, defende que o projecto da Cidade Velha deve assentar em três pilares – investigação, promoção e recuperação do patrimônio. Daniel Pereira está a fazer a sua parte, com quatro obras publicadas. E ainda tem na forja a publicação de um manual para ensino da história de Cabo Verde no ensino secundário.
Um historiador por acidente. Literalmente. Daniel Pereira sempre quis ser professor de educação física. No liceu praticava futebol, andebol, voleibol e ginástica. Em 1972, torna-se campeão de Cabo Verde de Futebol pela camisola dos Travadores. Não fosse um acidente militar, em que acabou por perder um antebraço. “A minha vocação era o desporto. Estive, inclusive, matriculado no Instituto Superior de Educação Física, em Portugal, mas o acidente que sofri tirou-me essa possibilidade”.
O interesse pela história de Cabo Verde foi despertado durante a faculdade, a partir da constatação de um absurdo. “No meu país era usual que uma pessoa não soubesse o nome da ribeira em que vivia, enquanto que na escola aprendia os nomes dos rios de Portugal. Apercebi-me que, afinal, não conhecia a minha terra”.
Em 1981, conclui o curso de História na Universidade Clássica de Lisboa. Três anos depois, publica “A Situação da Ilha de Santiago no 1º Quartel do Séc. XVIII”, sob a chancela do antigo Instituto Cabo-Verdiano do Livro, assim como as duas obras subsequentes – “Estudos da História de Cabo Verde (Séc. XVII-XVIII) ”, em 1986, e “Marcos Cronológicos da Cidade Velha”, de 1988.
Após um jejum literário de 15 anos, eis que, em 2004, Daniel Pereira apresenta ao público a obra “A importância Histórica da Cidade Velha”. Uma obra ilustrada com gravuras e fotografias e escrita em português, cabo-verdiano, italiano, inglês e alemão.Daniel Pereira justifica seu lançamento com a necessidade de promover a importância simbólica da Cidade Velha para a história moderna. “É um ponto fundamental no roteiro dos descobrimentos, desempenha um papel crucial no comércio de escravos enquanto estação de aprovisionamento de barcos, que iam e vinham da Europa para as Índias. E mais: não foi apenas um ponto de passagem de escravos. Eles eram preparados aqui, antes de seguir para o seu destino final. Aqui eram cristianizados, aprendiam a cultivar. Cidade Velha foi também uma estação de experimentação de plantas”, justifica.
Na concepção de Daniel Pereira, Cidade Velha é um ponto de fusão de culturas que acabou por gerar um novo homem. “Pela importância que tem hoje, até parece que todo o comércio de escravos na Costa Africana passou por lá. Não é verdade. Goré foi simplesmente uma prisão de escravos e esteve na dependência de Cabo Verde durante muito tempo”. Este é um questionamente a que se entregam muitos letrados cabo-verdianos, mas a diferença entre Goré e Cidade Velha é clara – o governo senegalês fez de tudo para que Goré fosse Património Mundial e nós ainda estamos à espera que a maçã caia nas nossas cabeças.
Por causa das suas publicações sobre a História de Cabo Verde e, particularmente, sobre Cidade Velha, Daniel Pereira é conhecido, entre nós, mais como historiador do que diplomata, uma carreira que segue há cerca de 20 anos. Já esteve colocado nas embaixadas de Cabo Verde na Holanda e em Angola, e nos Serviços Centrais do Ministério dos Negócios Estrangeiros, na Praia, onde se encontra desde 1999.
A Diplomacia e a História complementam-se no quotidiano profissional de Pereira. “A História permite-nos conhecer países e povos, seus hábitos, como se comportam. A História dá-me um conjunto de utensílios fundamentais para saber como lidar com outras culturas. A formação em História, que é uma formação humanística, é extraordinariamente importante para quem segue a carreira diplomática”, assegura.
Daniel Pereira nasceu na Ilha de S. Vicente a 28 de Março de 1951. Com um ano de idade, passa a viver na Cidade da Praia, onde faz os estudos primários e liceais. Hoje, reside em Achada de Sto. António, é casado e pai de quatro filhas.




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