segunda-feira, janeiro 03, 2005

Janeru trazi, Janeru leba

Ano Nobo. Paladron di fotu: www.mindelact.com

Janeiro trouxe e Janeiro levou Ano Nobo…Nasceu a dia 1 de Janeiro de 1930, como Fulgêncio Circuncisão Lopes Tavares. A 14 de Janeiro deste ano, um ataque de coração fulminante vitimou o músico, poeta e dramaturgo.

No dia 14, estava na cantina da Biblioteca Nacional, com João Branco, presidente da Associação Mindelact. Recebi a notícia da morte de Ano Nobo pelo telefone e, meio estupefacta, comentei com o João, que ficou lívido. Entrevistara Ano Nobo na véspera, para o livro Nação Teatro, e tirara-lhe a fotografia ki sta li di riba...

Ano Nobo de São Domingos foi um compositor ímpar na ilha de Santiago. Não só criou funanás, como também explorou a morna, a coladeira e ainda merengue, cúmbia e samba. Autor de mais de 500 composições, sem contar com músicas para a liturgia, Ano Nobo nunca recebeu um tostão sequer pelas composições gravadas.

E foram tantos os que interpretaram as suas criações: “Ta Pinga Tchapu Tchapu”, composição que fez aos 16 anos, gravada pelos Tubarões; “Domingo Decho”, “Ta Kundum Kundum”. Franck Mimita eternizou as mornas “Linda” e “Falsia d’Amigo” e todos conhecem a composição “Nha Mudjer” interpretada por Dany Silva. E claro, “Camarada Pepe Lopi”, também gravada pelos Tubarões.

Ano Nobu encontrou a música em casa: o avô e o pai, Pipi e Henrique Pipi respectivamente, foram maestros da Banda Músical da Praia. Assim, não é de se estranhar que soubesse tocar vilão, bandolim, cavaquinho, gaita de boca, violino e piano. Aos 2 anos, aprendeu a tocar o violão, sob orientação da mãe. “A minha mãe tocava todos os instrumentos de corda e clarinete. Aprendeu com o meu pai, que era maestro e filho de maestro. Minha mãe foi uma professora das mais exigentes”, revelou-nos o mestre aquando de uma entrevista, em 2002, para o Magazine Kultura.

Dono de uma modéstia sem par, Ano Nobo foi um homem culto, amante da leitura, e generoso, ao ensinar toda uma geração de músicos. Segundo o pupilo Manel Candinho, “Ensinou música a todos os que o procuravam, foi meu professor, um homem humilde e servidor de todos. Ano Nobo é para mim tudo de bem que se pode dizer de outra pessoa”.

As Composições de Ano Nobu são testemunhos da sua vivência, com especial incidência sobre as desventuras do amor e da amizade. Enfim, um compositor das virtudes e das fraquezas humanas.

Omi diskudadu
Kornu ta fri, noba ta dadu
Mudjer é sima violon
Bu ta toka-l na prima
Ta soa na bordon…


Como momento mais importante de sua vida, assinalou a condecoração da Presidência da República, com a medalha do vulcão . Como dramaturgo, Ano Nobu foi agraciado com o Prémio de Melhor Peça teatral de Cabo Verde, em 1999, com “Julgamento do Toto”, mais conhecido por “Toto ku Tota”. Ano Nobu deixou outras peças inéditas, nomeadamente: «Fiticêra de Língua», «Mufino Ku Maroto» e «S. Vinte Três».

Ano Nobo é um dos grandes da cultura cabo-verdiana. Um grande mestre que Cabo Verde perdeu a 14 de Janeiro de 2004.
Desde 27/11/2004