terça-feira, fevereiro 01, 2005

Manuel Lopes. O Último Claridoso

Manuel Lopes. Paladron: Instituto Camões

Manuel António dos Santos Lopes nasceu a 23 de Dezembro de 1907 no Mindelo, ilha de São Vicente. Foi um dos "claridosos" fundadores do movimento "Claridade", tal como o poeta Baltazar Lopes, entre outros. O último claridoso faleceu a 25 de Janeiro de 2005.

Flagelados do Vento Leste (1968) é uma das suas obras mais celebradas, adaptada para o cinema em 1987 pelo realizador António Faria, com produção de António da Cunha Telles. O seu primeiro romance, Chuva Braba (1958) valeu-lhe o prémio Fernão Mendes Pinto, sendo consagrado com o mesmo galardão pela obra O galo que cantou na Baía (e outros contos cabo-verdianos) (1959). Manuel Lopes escreveu ainda: Horas Vagas (poesia, 1934), Poemas de Quem Ficou (poesia, 1949), Temas Cabo-verdianos (ensaios, 1950), Crioulo e Outros Poemas (poesia, 1964), As Personagens de Ficção e os seus Modelos (ensaio, 1971) e Falucho Ancorado (antologia poética com alguns inéditos, 1997).

Sobre Manuel Lopes, o Instituto Camões publicou a fotobiografia Rotas da Vida e da Escrita, que regista uma conversa entre o escritor, o jornalista António Loja Neves e a investigadora Maria Armandina Maia, para além de depoimentos de outros escritores, nomeadamente Germano Almeida. No prefácio, Jorge Couto escreve que “o nome de Manuel Lopes goza de uma aura, não só de mérito literário, mas de cidadão que, ao longo de uma vida inteira, construiu e reconstruiu, sem cessar espaços preciosos para a identidade cabo-verdiana". Maria Armandina Maia, por sua vez, afirma: "Manuel Lopes continua a sonhar o futuro como as personagens que criou", referindo a sua "modéstia, pouco habitual nos dias de hoje".

Este livro reúne ainda um conjunto de fotografias do autor de Flagelados do vento Leste, desde a sua juventude, até aos dias de hoje, fotografias de amigos e dos muitos locais por onde passou, bem como uma entrevista conduzida por M. Armandina Maia e António Loja Neves onde o escritor explana razões da escrita e da vida.

Num dos testemunhos recolhidos nesta obra, o também escritor cabo-verdiano, Germano Almeida, afirma ter Manuel Lopes adquirido "direito de ficar credor do respeito e da homenagem de todos os filhos das ilhas". Germano de Almeida salienta a coragem do homem que formou um grupo que afirmou a incontestável independência literária de Cabo Verde. O movimento Claridade, surgido em 1936. Acerca desse movimento na entrevista dada, Manuel Lopes afirma: "Claridade não era de esquerda nem da direita, nós não discutíamos mesmo política, não queríamos política lá dentro", mas reafirma a caboverdianidade do projecto: "só devíamos respeitar uma cláusula: a de tratar assuntos que dissessem respeito a Cabo Verde. A Claridade era uma revista cabo-verdiana".

É esta e outras histórias que Manuel Lopes vai desfiando na sua entrevista. Fala da sua passagem pelos Açores e a vinda para Coimbra a contra gosto pois pretendia regressar à sua terra natal. Nos Açores conhece Vitorino Nemésio que considera "muito inteligente e muito culto". É também nos Açores que começa a dedicar-se á pintura "Onde comecei a pintar regularmente foi nos Açores" um situação motivada, segundo atesta pela "solidão de linguagem".
Voltando ao movimento Claridade, Manuel Lopes se refere as influências brasileiras nega veementemente qualquer influência de José Lins do Rego. "Comigo não seu deu influência nenhuma. É claro, basta olhar para as estruturas dos romances. E nessa altura líamos todos os brasileiros, não apenas o Lins do Rego. O Brasil teve sempre um movimento literário muito importante que nos interessava".

Uma conversa que passa também pelos seus livros e as suas personagens. "Eu não posso gostar nem deixar de gostar das minhas personagens. Elas são o que são. Eu limito-me a ir na senda de um caminho que o nexo das suas atitudes define", afirma.

Em 2002, o escritor foi homenageado na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa pelo Instituto Camões, no âmbito do projecto «Pontes Lusófonas».

A morte de Manuel Lopes tocou Cabo Verde. Segundo a nossa vizinha, Os Momentos, uma homenagem ser-lhe-á rendida, em breve, por iniciativa da Associação dos escritores.

Com Instituto Camões e Expresso
Desde 27/11/2004