quinta-feira, abril 28, 2005

A figura musical de Luís Morais

Uma crónica de D. Tavares

A introdução do clarinete na música de Cabo Verde terá ocorrido por volta dos finais da década de 20, com o período de esplendor alcançado pelo chorinho e o seu protagonista Heitor Villalobos. Esse efeito muito ficou a dever-se aos grupos musicais dos barcos que escalavam S. Vicente, sem esquecer o papel que veio a ter o maestro Sr. Reis na formação de músicos, a nível de instrumentos, sobretudo de folgo. Luís Morais, um dos seus pupilos, viria a converter-se num dos grandes músicos de Cabo Verde

Aquando do 1º Encontro de Música Nacional de Cabo Verde - 21 a 25 de Março de 1989 - Luís se identificou, no fim de apresentação da sua comunicação, como “Luís Morais, músico e embaixador da música de Cabo Verde”. Não sem razão, pois dizia sempre : “não sou tocador, sou músico”.

Descendente de uma família de músicos, oriunda da ilha da Boa Vista, que estabeleceu em S. Vicente, Luís Ramos Morais nasceu já nesta ilha, no ano de 1934. Adquiriu muito cedo paixão pela música que, aos catorze anos, já tirava, às escondidas, notas no saxofone do pai, antes de ingressar a escola do Senhor Reis, regente, durante largos anos, da banda municipal são vicentina.

Integrante da Banda Municipal, então sob os auspícios do senhor Reis, Luís, de principiante, ascendeu rapidamente às categorias de músico de 3ª, 2ª e 1ª classes, antes de deixar Cabo Verde rumo ao Senegal, onde com Morgadinho frequentou dois anos de preparatório para o ingresso na Escola de Belas Artes e Música de Dakar, onde veio a concluir o curso médio de música, com especialidade em orquestração para bandas. Ainda na capital senegalesa, completou dois anos de flauta, constituindo um background que lhe viria a servir nas suas actividades musicais. Não era assim sem orgulho que costumava recordar de, em 1974, ter sido chamado da Holanda para vir orquestrar o Hino Nacional que seria entoado no dia da independência nacional, uma proeza que ostentava por estes moldes: “N’ foi tchemód.”

Detentor de uma capacidade genial de orquestração, uma qualidade aliás que o catapultou a líder incontestável do lendário Voz de Cabo Verde, pois “era dele todo o suporte musical e a sua saída ditou a extinção do grupo”, como observou Djosinha. Com o fim desse grupo, Luís actuou, durante algum tempo, com recurso a músicos tipo free-lancers, muitos deles estrangeiros, havendo caso até que Badison, um surinamês, serviu de vocalista num dos seus famosos trabalhos discográficos - o “Luís Morais em La Bonanza”. Fazia ele todo o arranjo musical, escrevia a partitura e os entregava a esses músicos para execução. Foi assim com o conceituado pianista de nacionalidade basca, Shecundo Galarza, e os portugueses Idalino, trompetista, e Velasquez, Chaves e Ventura, violinistas, além de arranjos processados em parceria com o respeitado maestro português dos anos sessenta, José Luís Gomes.

Numa ocasião, escreveu todo o arranjo para o disco do Bana que viria a receber o título “Bana Canta a Magia de Cabo Verde”. Devido a compromissos assumidos, deixou-o ao conhecido músico e clarinetista português, Domingos Vilaça, que se encarregou, pura e simplesmente, de executar a tarefa, seguindo a escrita. E mesmo os arranjos de Paulino Vieira, embora genuínos, não fogem, contudo, à sua influência.

No plano composicional, a intervenção de Luís Morais se situa, particularmente, ao nível da morna e da coladeira, com algumas incursões ao território de estilos estrangeiros, então na moda - cúmbia, chorinho, samba e slows, cuja maioria se ficou pelos solos de lindas melodias. Foram, no entanto, aos estilos nacionais que dotou de letra, com linha poética a seguir os parâmetros da estrutura do período musical seguida nessa altura.

Na coladeira, a sua organização formal se assenta, via de regra, em duas quadras suportadas por um refrão e cabrestadas, ora sim ora não por rimas simples, com conteúdo temático a focar, unicamente, cenas simples do quotidiano, envoltas sempre numa figura central - uma personagem feminina anónima. Matemática, Velocidade, Trazer Azar, Capechona, em parceria com Frank Cavaquinho; Desobriga, Renda de Casa, Mansidão, Parede Bedje, em parceria com Morgadinho e Frank; Falame Verdade Grinhacim, Problema, são trechos exemplificativos:

Matemática

Menininha, oiá c’zé que já bô fazé
C’ és carinha latozinha
Bô tem és môs tude tâ pulí
T’andá da lí t’andá da lá

Refrão

Ói tchome bá embora
Pâ rua de Passa Sabe
Pâ n’ bá s’piá és vaidosinha
Que tene és pove ta mata morte

Na sé bondade ca bô confiá
Paqué sé lema é d’zé c’ma sim
Sel dobe oito hora esperal pa nove
Paqué matemática el é que sabé

Trazé Azar

C’zé qu’ nô ta fazé
Qués minininha de serra
Ta julgá c’ma é d’vera
Pâ bem n’ganá nós nés terra

És convite é pa cinema
B’zote cré cria é só problema
Nô ca podé costumá qués lema
E depois éss ta pô b’zote fama

Renda de Casa

Óh que afronta, óh que afronta
Li dente dés tirinha
Quem cré sabé s’és cosa é d’vera
Entrá na rua de Serpa Pinto

Refrão

Sabe bó é sabe
Naice bó é naice
Drete bó ca é
Paqué bó é de rua de Serpa Pinto

Óh desgraçadinha
Um, dós, três já é mute demás
Se bó tel moda um renda d’ casa
Medjor é bó tchim el pâ dós e mei

Óh firvura óh que firvura
Li dente dés tirinha
Quem passa sabe s’tôde caladim
Pamode és terra é sabe na d’vera.

Tratam-se, portanto, de composições concebidas sob o protótipo de nomenclatura da escola então vigente. Aliás, Manel d’Novas é o único que, por esta altura, consegue, mas somente no âmbito deste género, uma fuga em frente. Pois, se no campo de construção musical os seus companheiros organizam as suas criações em acordes de passagens simples, popularmente conhecidas por “primeira, segunda e terceira”, ele já vai primar pela alteração desta fisionomia, recorrendo à modulação que abrange outras notas musicais, enriquecendo esta arquitectura. No plano temático, ao invés dos colegas que, servindo-se de cenas do quotidiano, fazem da coladeira um produto, cujo intuito é simplesmente evidenciar um caso ou uma personalidade, Manel, socorrendo-se destes mesmos elementos e ingredientes, generaliza-os, transforma-os e os dilui num colectivo a espelhar o espaço social envolvente. E no aspecto formal, não dá atenção à rima.

Na morna, a estrutura, tanto formal quanto musical, seguida por Luís Morais, é também a da época, com a saudade a encabeçar o conteúdo temático. Se recorre na coladeira unicamente à figura femenina, neste género socorre-se tanto da mulher quanto da terra amada. Entre as mais representativas desta evocação surgem:

Bela Querida

És sodad cum tem
Nascé de bô ausência
És sodade cum tem
Levame nha pacência
Má inda um tem fé
Fé e esperança
Cum dia um t’ódjábu
Pan’ bá braçób (ninábu)
Óh Bela, querida.

Hora di bai
É bem triste
É hora triste di sofrimento
Ma nha sodade
Inda é más triste
El é um sodade chei di tormento

Água di bôs odju
Quê ramede
Dés nha sede
Sim c’mâ luz d’ bôs odjus
Tâ lumian’ caminho
És caminhu tão longe
És caminhu di mar
Pa n’ bá ninábu
Pa n’ bá braçábu
Óh Bela, querida

Sodade de Maria Graciela

Óh que sodad
Oh que tristeza cum tem
Di vivé longe di bó
Longe di quem
Qui tâ cré sé cretcheu
Djan’ pidí deus cu fé
Pal ninan’ és pensar
Nós dós, n’ fazé pâ s’quecé
Fisionomia e imagem
Cum t’oiá tâ saná

Refrão

Longe di bôs odjus ta sofré
Longe di bô amor
N’ tâ tchorâ
Assim, n’ tâ pidi Deus
Pâ bem uní
Nôs coraçon igual

Bô carinho é qu’é tude nha paixão
Bô sorise cà podé ser ilusão
Já bô oiá
N’ fazebe és morninha
Qualidade bó tem tcheu
Pâ bó bem ser di meu
Assim, nós amizade tâ juntá
É o que n’ tâ desejá
Pâ tud consol de nha vida.

Sodade de Cabo Verde

Cabo Verde bem contam’
Que sodad é éss cum tem di bô?
Mi sozinho tâ sonhâ cu bô
Tâ pensa tcheu na dia d’ nha regresse

Refrão

Baixinhu n’ouvide um segrede el contan’
Quel tive um dia nha ausênsia profund
El esperan’ qu’ tude fé,
Qu’ tude sé fé
Té um dia cum tâ bem braçal.

N’ somá cu sorise
Tâ proximá perte de Mindel
N’ pidil tude mansim
Abrí bô Porte Grande
Bô tcháme tchorâ d’alegria.

Afora composições individuais, Luís musicou ainda poemas de outros autores. À excepção de “Dispidida”, cuja melodia pertence a Tazinho, todos os trechos de João Silva (Djunga Biluca) - “Fidjo de Ninguém”, “Merecimento de Mãe”, “Bô Imagem”, “Segrede de Nha Vida”, “Alegria”, “S’tória de Nha Vida”, “Ragoce de Manhe”, “Sofrimento de Sodade” ou “Destino de Criol”, assinados João Silva/Luís Morais, com versos a espelhar até uma requinte poético de certo nível, foram por ele musicados. Pertence-lhe também a música dada ao poema de Nelson Fernandes, enformado em morna sob o título “Teresa”.

Mas a glória de Ti Lís ficou a dever-se, principalmente, ao seu background em conseguir arranjos musicais de alta qualidade e, designadamente, ao seu grande talento na materialização execucional desses arranjos, alcançada através de instrumentos de sopro.

Com grande competência de execução, Luís Morais dominava todos os utensílios de son entourage ligados à palheta: saxes - alto, baixo, tenor e soprano, clarinete e ainda o bilabial, flauta, uma particularidade destacada pelo seu companheiro Morgadinho: “Tinha dois tios, grandes clarinetistas, mas Luís tinha o seu lugar à parte”, uma performance de todos reconhecida.

Com efeito, em Boas Festas, apoiado por Tói de Bibia no violão, põe a nú as suas qualidades. Mas é em Mona Linda, onde aparece Humbertona na viola baixo, que a interligação dos seus apetrechos é mais evidente. Neste trabalho, utiliza-os todos, numa conexão brilhante semantizado num trabalho próprio de um profissional. Aliás, a sua rica discografia individual, espelha esta sua faceta: Boas Festas, Mechê, Sensationnel Luís Morais (com Negra Calienta), Romance do Nosso Amor, Mona Linda, Fantasia, Noche de Ronda, Morena, Luís Morais em La Bonanza, Sacramento, O Internacional Luís Morais, Cumbia (Papá Bedju), Adorável, Saxo Show, La Violeta, Brodway, Ternura, Êxitos de Luís Morais, Mascrinha, Sensacional, Luís e Manel, e vários outros, além de magníficos trabalhos em grupo, realizados sob a sua batuta e direcção, destacando-se os no Voz de Cabo Verde, e os com o cantor Bana - o mago da morna e da coladeira, cujo prestígio alcançado contou também com o apoio de Luís Ramos Morais.

Luís contribuiu, igualmente, para o lançamento de muitos jovens, tornando-os conhecidos no mercado musical, pois gravar um disco, na década de setenta, era privilégio de poucos. Paulino Viera evidencia este facto, reconhecendo ter sido “Luís que levome pâ Lisboa”. Piúna, Joãozinho Severiana, Agostinho Mulato, Tony Óscar, Cabanga, Bebeto, Jorge Sousa, Armando Tito, Leonel, e mesmo Chico Serra e Longino Baptista, são os outros. Zeca Couto só não acedeu ao convite porque era ainda muito jovem.

In Jornal Horizonte n.º 310, de 02 de Julho de 2004
Desde 27/11/2004