Um criador no anonimato
Uma crónica de D. TavaresDe Bubista ser conhecida por “terra de mornas” não suscita assim tanta dúvida. De ser o seu berço, é que costuma dividir opiniões.
Assim, não é de se estranhar, pois, que tenha havido nesta ilha, número significativo de compositores, sem os quais, supõe-se, não seria possível que, naquele tempo, houvesse tanta composição. Luís Rendall, comentando a razão por que só começou a dotar as suas músicas de letra depois de ter ido à Boa Vista, justificou o facto com o argumento de ter encontrado na Boavista, o hábito de “cantar na sala de baile”, costume que não era habitual em S. Vicente. Aliás, a morna “Maria Barba” constitui exemplo paradigmático desta prática.
Por outro lado, numa terra onde a serenata quase era, por assim dizer, divertimento e uma tradição, e considerando o carácter que a nortea e a função a que se destina, não revela surpresa alguma falar em criadores na ilha da Boa Vista, muitos até circunscritos ao anonimato, como de resto acontece também com grandes tocadores de violão. Por exemplo, pouca gente conseguiu ainda descobrir que Alírio Almeida é compositor.

Baptizado pelos pais Anacleto Dias Almeida Cruz e Eugénia Roza da Cruz Almeida, com o nome Alírio Bazílio de Cruz Almeida, este “cabrer” que nasceu na Vila de Sal-Rei a 2 de Janeiro de 1940, deixou extraviar a maioria das suas primeiras músicas, por não as ter conservado, nem no papel e nem gravadas. Jamais se esqueceu, porém, da sua primeira criação - a morna “Carta de Nha Amor” -, feita quando rondava os seus 17/18 anos, e dedicada a uma namorada. Como guarda também bem fresca na memória a última, igualmente uma morna sob o título “Bô voltâ”, pois não veleja muito para a coladeira, que de resto só possui uma única, sem divulgação.
“Eu não tenho momentos de compor. As minhas músicas escapam assim, espontâneas”, enfatiza, exemplificando ter a morna “Pescadora”, um dos seus lindos trechos, visto a luz do dia numa altura que deambulava solitário pela praia do mar. Aliás, os seus momentos de inspiração germinam, segundo ele, ou na orla marítima ou em viagem de barco, situações que traduzem a sua própria vivência. Pois, Alírio começou muito cedo a viajar. Motorista, com 15 anos de idade, depois de ter trabalhado algum tempo na Fábrica de Conservas da Boa Vista, se lançou na vida marítima, sulcando mares das ilhas em barcos de pesca. Passou depois a Neptuno, um navio de cabotagem, que teve Tazinho por capitão. Diz que os embarcadiços da Boa Vista, tripulantes destes veleiros, eram quase todos tocadores.

E cumprido o serviço militar obrigatório, seguiu depois para a Europa, onde seguiu a mesma carreira. Daí não constituir surpresa o facto de as suas criações poéticas terem origem neste espaço e a sua temática, sob a forma de dedicatórias, evocar particularmente o amor, como no trecho “Pescadora mi e bô timoner/Dixan’ libôbe na port segur/Ami e farol de bô vida/Dixan’ nadâ na bu amor/(…) e outras de igual conteúdo, destacando-se de entre uma trintena delas, “Alice”, “Madrugada”, “Beijo de traição” e “Nha dor câ dor de ninguém”.
Desabafo é um outro tema abordado também nas suas composições, o que remete para as antigas mornas satíricas da Boa Vista, como em “Bô Bandera”: Câ bô passa diante de bô bandera/Sem bô saudal cu carinhu/venera símbolo de bô pátria/E sinal que já bô e livre/(…).
Não sendo oriundo de uma família de tocadores, apesar de ser um “cabrer”, Alírio aprendeu, no entanto, a tocar violão e recorda o antigo ambiente “sabe” desta sua ilha, hoje praticamente inexistente. Dos tempos em que quase todos os sábados se organizava bailes de rabeca no interior da ilha, nomeadamente em Stancha e Rabil, que no fim se transformavam sempre em serenata, numa altura em que existiam grandes tocadores de violão: Nhanhe, Cid, Magala, Tazim e o irmão Mendonça, e violinistas como Tanóze, João Severo, Herculano Vieira, Noel Fortes e tantos outros. Relembra, no entanto, com saudades dos seus acompanhantes nessa labuta, Nadir Almeida e Luís de Doroteia - Xôte.
Dotado de uma voz de touro, Alírio, que vive actualmente na Cidade da Praia, continua a compor, tendo no seu horizonte a gravação das suas músicas.

Oh! Pescadora
Bu piscôme nha coraçon
Mâ un câ sabé
Si bô tem remed pâ el
Es fazeb um frida
Oh! Que chaga grande
Que só um amor profund
E capaz de cural
Pescadora
Mi i bô timuner
Dixame libôbe
Na port segur
Ami
E farol de bô distin
Bô i mar di nha vida
Dixame nadá na bô amor
Bô timuner
Bem buscôb na noite de luar
Lua tâ brilha
Hoje só pâ nos dós
Mar tâ serena
El tâ libône di mansinhu
Até que nô tchigâ
Na bô paraise d’ amor.




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